A Revolução da Complexidade

Sunday, December 16, 2012

Tem algo acontecendo aqui.
O que é não é exatamente claro.
“For What It’s Worth” de Stephen Stills

O blog em ingles

Eu googlei “complexity revolution” varias vezes nas últimas semanas. Durante esse período, o número de ocorrências passou de umas 9.000 para 12.500. É evidente que algo está se acontecendo aqui. Outra prova disso é o fato de que a minha primeira escolha para nomear o domínio do blog Google – “ComplexityRevolution”- já está tomada. Então eu inseri um hífen, fazendo o endereço completo aqui http://www.Complexity-Revolution.blogspot.com. (Comprei um domínio personalizado, ComplexityRevolution.org, mas não tive exito até agora em apontar este blog para isso.)

Seja qual for o significado de”complexity revolution”, estou, com este blog, saltando dentro do diálogo – e do debate.

“Complexidade” é um grande guarda-chuva. Em vez de tentar definir este termo — algo que escapa mesmo os principais pensadores no campo [1] – diria simplesmente que a complexidade é uma característica, em algum grau, de todos os fenômenos conhecidos e investigadores científicos estão fazendo progresso em compreender seus padrões subjacentes e muitas vezes surpreendentes. Como cientista político, a minha esperança especial é que tal abordagem para a ciência – tanto apesar e por causa de suas origens físicas – pode ajudar os cientistas sociais, cientistas políticos em particular, a construir reivindicações mais fortes que possam ser de fato reputadas como científicas.

Os cientistas sociais têm sido fortemente divididos sobre usar ou não os conceitos e as metodologias da ciência física. Como Immanuel Wallerstein notou, a ciência social tem sido como “alguém amarrado a dois cavalos galopando em direções opostas” [2]. A capacidade dos físicos newtonianos de pronunciar com precisão matemática leis universais da natureza tem exercido uma considerável inveja entre muito scientistas sociais. Mas essa abordagem tem repelido outros cientistas sociais que se opõem as implicações deterministas de fazer o comportamento humano tão previsível como as marés.

Como partidário do segundo grupo, considero a ciência nascente de complexidade enormemente estimulante. É parte de uma corrente de indeterminismo surgindo das ciências físicas para bem mais de um século – a ascensão do improvável através da evolução biológica, o uso de probabilidade na termodinâmica dos sistemas fechados, o princípio de incerteza na física quântica, e a noção de auto-organização em sistemas termodinâmicos abertos. A física não determinista não só oferece ferramentas que podem ser formados para criticar “a ciência social newtoniana”, mas uma visão do mundo material, que pode acomodar o livre arbítrio humano e sua imprevisibilidade intrínseca. Fica assim caracterizado um grupo com o qual os cientistas sociais não só podem, mas precisam estabelecer interlocução. Por que precisam? Porque cada sistema social humano é um sistema físico. Mas nem os cientistas físicos nem os cientistas sociais podem explicar, em seus próprios termos, como isso é assim. Isto constitui uma lacuna na perspectiva científica da realidade. Como Edgar Morin coloca,

“… a ciência natural não tem nenhum meio para conceber-se como realidade social; a ciência antropossocial não tem nenhum meio para conceber-se no seu enraizamento biofísico; a ciência não temos meios para conceber seu papel social e sua natureza in sociedade” [3].

Para preencher esse abismo entre as”duas culturas”, precisamos desenvolver concepções fisicamente integradas de sistemas sociais humanos. Isso requer comunicação entre cientistas físicos e sociais. É necessário o desenvolvimento de uma linguagem comum para permitir tal comunicação. Em meados do século XX, a cibernética e a teoria geral de sistemas assumiram este desafio, mas ficaram aquém. A teoria dac omplexidade agora parece prestes a pegar suas bandeiras caídas. Vários ingredientes conceituais para tornar isso possível parecem estar disponíveis, mas o trabalho pesado ainda precisa ser feito.

Minha própria entrada para este diálogo é uma combinação de teoria do poder político e teoria da complexidade, que eu chamo uma teoria da complexidade de poder. Além de uma apresentação que eu dei numa conferência no início deste ano [4], eu não tenho trazido à publico minhas ideias. Este blog é uma forma de pensar em voz alta, idealmente receber feedback e, ao mesmo tempo, desenvolver algo para publicação.

A teoria, em poucas palavras, é assim: A termodinâmica é a ciência central de complexidade. Complexidade desorganizada e complexidade organizada [5] correspondem, respectivamente, a desorganização ou desordem em sistemas termodinâmicos fechados e organização (ou auto-organização) em termodinâmica de sistemas abertos. Podemos identificar complexidade termodinâmica no exercício do poder, quando fazemos a distinção entre”poder sobre” (poder exercido como a escolha de uma pessoa ou grupo imposta em outro) e “poder com” (poder exercido como escolha mútua nãofinalmente imposta nos outros ). Poder exercido sobre os outros tem uma função desorganizadora, que aumenta a complexidade desorganizada em sistemas sociais humanos. Da mesma forma, o poder exercido com os outros tem uma função deauto-organização, que aumenta a complexidade auto-organizada humana.

Neste ponto de vista, não somos apenas os grandes organizadores mas os grandes desorganizadores. Nós somos, como Edgar Morin defende há tempos, não só o Homo Sapiens, mas o Homo Demens. “O reino do Sapiens”, escreveu Morin, “corresponde a uma introdução massiva de desordem no mundo” [6]. Quando exercemos o poder de dominar os outros, seja através dos níveis atualmente alarmantes de escravidão [7] ou ditadura ou formas muito mais sutis de opressão e exploração, nos introduzimos a desordem, estamos desorganizando a nós mesmos. Quando nos subjugamos a natureza em vez de fazer “diálogo com a natureza” (como advogado por Ilya Prigogine [8]), estamos desorganizando a nós mesmos. Quando, no entanto, exercemos o poder com os outros e não sobre outros, quando colaboramos com os outros parao benefício da comunidade inteira, quando lidamos com a natureza como um parceiro igual, conseguimos maiores graus de auto-organização. Com tais poderes extraordinários, podemos descrever-nos, para melhor ou pior, como Homo Potens.

São tais comparações entre os reinos físicos e humanos meras metáforas ou elas apontam para a elusiva dimensão física de sistemas políticos humanos? Com base no que eu tenho sido capaz de dizer até agora, é compreensível se você assumir a primeira. Mas, neste blog, vou tentar construir um argumento plausível para o último.

Sei bem que, associando a termodinâmica com sistemas sociais humanos, eu estou partindo do consenso da maioria dos cientistas, sejam elas sociais ou físicas. E, sei que muitos teóricos da complexidade, talvez a maioria, contestaria a noção que a termodinâmica é a ciência central de complexidade. E, assumindo a tarefa de integrar tudo numa visão política de nenhuma maneira simplifica as coisas.

Tudo o que posso dizer neste espaço é que eu estou construindo um mosaico. E as peças do mosaico são empiricamente baseadas em analogias traçadas entre os reinos físicos e políticos. A argumentação vai funcionar ou não sobre a força ou a ressonância destas analogias como um grupo. Se provam ser apenas isso – analogias simples – a teoria pode ser jogada na lata de lixo da especulação científica. Se, em face de testes rigorosos, as analogias têm ressonância, a teoria pode reivindicar uma posição provisória, sempre sujeita, naturalmente, a revisão e testes suplementares. Onde quer que isso possa ir parar, seus comentários e críticas serão muitoapreciados.

(Agradeço muito a ajuda de Ricardo em polir meu português esta vez. Mas d’aqui para frente eu vou depender nos meus próprios recursos linguísticos – querendo dizer Google Translate e minha memória da língua. Sei que será frequentemente desajeitada. Felizmente eu aceitarei recomendações sobre correções.)

*******

[1] Melanie Mitchell relata como teóricos da complexidade num simpósio do Santa Fe Institute, quando posaram coma questão de definir “complexidade”, não foram capazes de chegar a qualquer consenso (Kindle 1620). Ela sugere que, mesmo que uma única ciência ou teoria da complexidade ainda não existe, pode ser que estar em um estágio de formação – “… uma característica essencial da formação de uma nova ciência é uma luta para definir seus termos centrais” (Kindle 334 ). Complexity: a Guided Tour, 2009, New York: OxfordUniversity Press.

[2] The Uncertainties of Knowledge, 2004:19. Philadelphia: Temple University Press.

[3] Ciência com Consciência (2001:20,Rio de Janeiro: Editora Bertrand Brasil), uma traducao de Science avec conscience. Infelizmente, o trabalho pioneiro de Edgar Morin na teoria crítica da complexidade é pouco disponível em inglês. Vou me referir a suas idéias regularmente neste blog.

[4] ” A Complexity Theory of Politics “, 20th Winter Chaos Theory Conference, Montpelier,Vermont, March 24, 2012.

[5] O ensaio seminal de Warren Weaver “Ciência e Complexidade” (American Scientist, n º 36, 1948: 536-544) distinguiu entre complexidade organizada e desorganizada. Ele não fez uma associação explícita entre complexidade desorganizada e a termodinâmica mas implicou tanto quando ele relatou o estudo da complexidade desorganizada com Willard Gibbs e mecânica estatística.

[6] Traduzido de Le paradigme perdu: la nature humaine (1973:122 Paris:Éditions de Seuil).

[7] Atualmente existem até 100 mil escravos nos Estados Unidos e possivelmente 27 milhões em todo o mundo (editorial do New York Times, “Slavery in the Modern Age”, 1 de julho de 2011,http://www.nytimes.com/2011/07/02/opinion/02sat3.html).

[8] “A ciência é um diálogo entre o homem e a natureza …” Ilya Prigogine (The End of Certainty: Time, Chaos and the New Laws of Nature,1997:153, New York: The Free Press).   Ele elabora sobre o tema no capítulo 7, “Nosso Diálogo com a Natureza “(153-162).

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